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Excesso de realismo ou inveja?

  • Foto do escritor: Ana Calazans
    Ana Calazans
  • 1 de abr.
  • 4 min de leitura
Foto gerada por inteligência artificial.
Foto gerada por inteligência artificial.

Confesso que não sei. E sigo escrevendo esse texto contrariando meu próprio bom senso.


Hoje, tentando ser imparcial ao máximo, tentando me ver pelas lentes estéticas da atualidade, me acho uma pária da vaidade. E sempre fui. O diagnóstico me salvou da eterna culpa de ser meio machuda (masculinizada), meio esquisita por não curtir muito ser “escrava da beleza”.


Meu autocuidado físico sempre foi associado à higiene. Tiro pelo porque fede, faço unha se estiver com cara de suja. Conheci unha em gel e a comodidade é ímpar, ela fica impecável até se você faxinar a casa. Mas se eu não estiver afim, é só cortar e okay. Cabelo odeio lavar - odeio a sensação do cabelo no meu rego e ele sempre vai parar lá! Mas lavo porque odeio sujeira, odeio mau cheiro. Higiene pra mim é basilar e tem a ver também com a minha necessidade de ordem.


Mas a vaidade, pura e simplesmente, acho fútil. Gosto de me sentir bem e pra mim é disso que se trata quando olho no espelho. Às vezes, lanço looks com tênis verde limão, calça pink, estampas floridas, ou não; enfim, nunca fui dada a modismos. Vejo, acho bom, saio e pronto. Mas gosto também de me sentir adequada, então, profissionalmente, as extravagâncias se limitam à zonas de conforto, dia a dia. Em viagens, com autoridades, por exemplo, eu sou mais polida.


Mas pensa numa coisa que não me vejo nunca é nesse excesso de produção instagramável. Uma simples foto de família, tem que ter maquiagem, roupa combinando, poses… nada de naturalidade, a espontaneidade se perdeu e o que importa é se a “foto ficou boa” ou se a “luz tá perfeita”. Eu me coloco do lugar de técnica - sou da área - e acho que essa plastificação das relações humanas banaliza a técnica, os objetivos reais de uma foto produzida, a função da comunicação profissional e cria uma realidade paralela, onde a perfeição utópica é o referencial.


Um cacho de cabelo não pode estar fora do lugar, dentes brancos, perfeitamente alinhados; olhares se cruzando artificialmente no time ideal; roupas impecáveis, nenhum amassado, jamais! Que mundo é esse, em que a maquiagem está recém feita o tempo todo e a cara tá zero oleosidade? A cor da pele - bronzeado indefectível - do cabelo, das árvores, do mar, do céu e até das nuvens, numa nitidez ímpar!


Essa vida de filtros e efeitos impõe padrões cada vez mais inalcançáveis, que colocam a meta num patamar impossível de chegar. Não serei hipócrita, jamais: já fiz vídeos no insta em que me vi compelida a usar filtro, porém, confesso que fiz isso muito mais pelos outros que por mim mesma. Minha cara é essa e filtro nenhum vai mudar. É fato. Sou vista o tempo todo em eventos e não adianta colocar uma foto indecifrável no perfil e não ser reconhecida pessoalmente.


Tenho essa consciência muito clara, mas vivo num ambiente altamente superficial no quesito aparência e em alguns momentos tentei me ajustar. Não me orgulho disso, mas até o diagnóstico, era muito fácil me perder. Atire a primeira pedra quem nunca tentou se adequar sendo a única da manada a seguir na direção contrária. Pois é. Essa sou eu. Hoje, se eu quiser usar um filtro, não será pela mesma razão. E que fique claro: esse texto é contra os EXCESSOS.


Tudo que a modernidade trouxe para ajudar e facilitar nossa vida, é bem vindo! Estou aqui colocando o que acho do excesso de produção nas publicações amadoras, triviais, de perfis pessoais, que viraram contas comerciais midiáticas sem ser. Tudo tem que ser pensado, tem que ter hora, frase de efeito, estratégia. Inferno! Não dá pra ser a gente mesmo? Escolher uma foto aleatória, na hora que eu quiser, que signifique algo pra mim, escrever algo que faça sentido (ou não) e postar? Porque tem “passar uma mensagem”? “Vender um ideal”?


Essa coerência forçada com tudo e todos o tempo todo é chata, cansativa, exaustiva! Eu só quero ser eu, agir nas minhas redes como eu quiser, eu não quero passar mensagem nenhuma, quero postar memes, mensagem reflexiva, profunda; reel idiota, mil coisas de pets, coisas sobre Jesus, enfim, o que eu quiser e pronto. Não quero estudar estratégias ou fazer planejamento de mídias sociais pra utilizar uma ferramenta em que uso pra distração, em que posto coisas pessoais, opiniões, pensamentos, meu modo de ver a vida!


Essa robotização do Instagram é pra quem usa o app como dispositivo profissional, que monetiza posts, não pra mim e você que só posta besteira mesmo, pra que pagar fotógrafo pra isso, mana? Faz aquela foto doida todo mundo junto, cabelo assanhado, vesgo; um clique na praia tomando um caldo da onda, vida REAL, como estar na praia com os fios todos alinhados, sem frizz? IMPOSSÍVEL…


Eu não consigo ver beleza na perfeição, me perdoe, não consigo. Fico até triste quando vejo perfis assim, principalmente de família, casais, onde até os beijos são ensaiados pra foto… as crianças aprendem a fingir sorrisos, maridos a fingir afeto, mulheres a fingir felicidade, afinal o ensaio já está pago, né…


Pra mim não dá, quero uma foto boa mesmo que seja com os olhos revirados e de cara feia - se é a realidade na hora, fazer o quê? A gente vai acabar rindo depois com a memória do dia. Em outro time, a foto sai massa sem esperar, porque é assim que é. A maior parte do tempo é vivida, não postada, isso é o que importa. Tenho poucas fotos se compararmos minha atividade no Instagram com demais pessoas.


Mas tenho memórias muito legais e engraçadas. E tenho muitas outras que quero construir. Minha vida começou há pouco, tenho essa sensação e talvez não seja tão imparcial assim meu julgamento, mas insisto que quando se trata de relações humanas, autenticidade e espontaneidade ainda dão certo, ainda são o segredo. Eu não sou lá uma boa referência, se me vir usando um batom é um milagre. Mas realmente acredito que uma foto produzida pode ficar linda no insta, mas não diz nada de verdade, a não ser que você se importa muito com a plástica das coisas - e só isso.


 
 
 

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