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Minha vizinha

  • Foto do escritor: Ana Calazans
    Ana Calazans
  • 17 de mar.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 17 de mar.

A dolorida realidade da mulher sem rede de apoio que classes privilegiadas insistem em deslegitimar, tratando como mimimi


Cá estou eu na minha 'bela' pia de pratos quando ouço minha vizinha bradar:"trabalho mais na minha folga que no meu emprego!" Tem coisas/falas aleatórias que a maioria nem repara, mas me atravessam de forma muito profunda. Esse desabafo dela falou muito comigo e eu comecei a refletir sobre a vida da vizinha.


A minha vizinha é uma mulher sem rosto, sem nome. Só conheço pelos gritos e pela rotina nitidamente exaustiva, com a qual me identifico e muito. Aos fins de semana, quando também estou na minha labuta doméstica, ouço do lado de cá do muro o barulho de vai e vem de água no balde, a vassoura de piaçava arrastando no chão, os gritos impacientes de uma mãe que quer terminar logo os afazeres pra ter tempo pra si mesma, enquanto as crianças, brigando entre si e fazendo manha, atrapalham o processo.


Sinto muitas vezes o cheiro gostoso de comida no fogão e ouço também a panela de pressão chiando - com certeza é feijão! Ao fundo, umas sofrências da moda embalando a confusão completam o cenário.


Não sei como ela é, nunca a vi. Não sei onde trabalha, no que crê, os planos que tem. Pelo tom de voz, sinto que é uma mulher cansada, sobrecarregada. Que trabalha a semana toda pra manutenção das despesas da casa e no fim de semana tem assumir a limpeza. O gerenciamento doméstico é tão pesado quanto qualquer outro, mas totalmente invalidado. Na minha casa, meu filho quebrou a porta, fechadura e o escambau e lá ficou, até que eu ligasse pro chaveiro.


Juro que minha vontade era que aquela porta morresse daquele jeito, mas tenho caracteristicas cerebrais que me impedem. Hoje sei que por conta do autismo, a desordem doméstica me afeta muito, ao ponto de querer morrer, sumir, ir embora de casa - não, não ria. Isso me faz sofrer muito. Por muitos anos me senti péssima por algo "tão pequeno" me desestabilizar tanto, até o diagnóstico. Eu preciso desse controle ambiental, é fundamental.


Por isso me solidarizo com a vizinha sem sequer conhecê-la. Nem sei se ela sofre, tem consciência da sobrecarga ou acha que está fadada a isso e tudo bem. Mas sinto na voz dela o peso, esse peso que conheço bem, a responsabilidade intransferível das tarefas domésticas. Essa obrigação, essa missão tácita que todo machista acha que é nossa, afinal, que mulher não gosta de "cuidar" da própria casa? O oportunista uso da palavra cuidar vem justamente pra apelar ao sentimentalismo feminino, fruto desse conceito obsoleto de que nascemos pra cuidar do outro.


E quem cuida de nós?


Tive uma virose e foi uma semana de diarreia. Sem apetite algum, na sexta feira pedi uma sopa no delivery pra não morrer de inanição. No sábado, com o corpo tremendo de fraqueza, fui no mercado, comprei verduras e fiz minha sopa.


E é assim que é. Não sei se é igual com a vizinha, eu sou órfã, já ela, como disse, não sei nada sobre ela.


A única coisa que sei é que não ouço uma voz masculina sequer naquela casa, as crianças só chamam a mãe. Nunca ouvi alguém chegar e dizer "deixa que eu lavo, que eu cozinho, que dou banho neles". Nunca ouvi um suposto genitor oferecendo ajuda. São fins e fins de semana, eu do lado de cá; ela do lado de lá; eu gritando desse lado do muro; ela do outro, numa sincronia solidária, onde quando eu grito ela cala e vice e versa; acolhendo o desabafo de quem não aguenta mais a sobrecarga e a desesperança de não ter pra onde fugir.


Tentaram vender essa ideia de que mulher retada é aquela que dá conta de tudo. Que a boa esposa, a mãe de família exemplar é aquela que sabe onde tudo está, ensina a lição, vai a todas as reuniões, apresentações escolares; mantém a organização, a limpeza, as finanças em dia e quando chega à noite, está limpa, depilada e cheirosa para a hora h com o maridão!


Sempre me senti péssima por não cumprir um terço desses requisitos e vivi uma vida inteira frustrada. Nunca me encaixei nesses termos e isso afetou muito minha conduta na maternidade. Obviamente, sem tempo para cumprir todos os critérios desse padrão distorcido, tive que priorizar; a prioridade sempre foi a sobrevivência. Resumindo: trabalhar para dar de comer aos rebentos, às vezes em dois ou três empregos, ou seja... reuniões, apresentações, nunca fui muito vista por lá.


Não sei se é a realidade da vizinha. Não sei. O que sei é que é mais uma mulher sobrecarregada, invisibilizada, deslegitimizada e obviamente sozinha no cuidado com essas crianças, que deveria ser compartilhado com o genitor delas principalmente nos fins de semana, quando essa mãe precisa limpar a casa, colocar tudo em ordem pra semana seguinte - já que não tem quem faça com/por ela. Uma realidade que eu conheço de cor e divido com ela, muro a muro, mesmo com filhos crescidos.


Enfrento isso cada fim de semana, quando preciso adular - no dia em que estou paciente - ou dar um escândalo - quando perco a paciência que me resta - para que eles, filho e marido, compreendam que não sou serva, sou colega de quarto, que também paga contas da casa e tem que rachar as tarefas domésticas!


O simples fato de eles acharem que a maior parte é minha OBRIGAÇÃO é o que me causa revolta, indignação profunda mesmo. Eu só queria paridade. Eu só queria que, no sábado pela manhã, eles dissessem: "o que a gente vai fazer hoje?" e dividíssemos as tarefas numa boa. E não desejo isso só pra minha casa, mas pra de todas as mulheres que vivem isso. É muito injusto deixar que a mulher que rala no 6x1 se mate sozinha no fim de semana, enquanto os bonitos (filhos, marido e agregados) roncam até meio dia!


E quando a gente se reta e bota pra fazer alguma coisa, é de cara feia, má vontade, por causa do "cansaço". Faça-me uma garapa!


Fato é que, chegando ao fim desse texto finalmente compreendo o motivo de a vida da vizinha desconhecida tanto mexer comigo, afinal, reflete a minha própria, minhas dores e dissabores da vida doméstica, insatisfações nessa temática com a maternidade e o matrimônio, a solitude com as obrigações no gerenciamento do lar e a triste constatação de que minha casa é uma extensão de meu trabalho, já que, quando chego onde deveria relaxar, descansar, encontro mais tarefas a realizar e não conto com 'equipe' para dividir as responsabilidades.


E por mais distorcida que seja, não significa que não é real, afinal é assim mesmo que funciona. No trabalho, eu delego, sou a chefe de equipe. Mesmo sendo a maior responsável e tendo de lidar com os erros e ausências, não posso dizer que não tenho com quem contar. Em casa, o jogo é solo. A bendita tripla jornada - trabalho, estudo, tarefas domésticas - ela existe e é infernal para mulher. Por isso a gente grita. Guardar no peito já não dá quando você tá de saco cheio, na pia de prato, com a mão cheia de sabão, olho ardendo da gota de suor que caiu dentro, chama o filho pra pedir um copo de água e ele diz "mas a senhora tá pertinho da geladeira!"


PEGA ESSA ÁGUA, SEU FILHO DA...

 
 
 

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