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Uma carta que nunca entregarei

  • Foto do escritor: Ana Calazans
    Ana Calazans
  • 21 de abr.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 21 de abr.

Ultimamente tenho refletido muito sobre meu diagnóstico. Obviamente que tenho pesquisado e há muito material publicado que retrata a dor silenciosa do nível 1 de suporte. Sem “jeito” de autista, a constante sensação de parecer uma impostora mexe muito comigo. Principalmente por eu ter certeza de que não sou.


Aliás, sempre tive pouquíssimas certezas nessa vida. Quase nenhuma. E uma delas é que sou autista. Tudo que vi, até hoje, na literatura sobre o espectro me define muito bem. Me senti, pela primeira vez na vida, com uma identidade, me reconheci, eu sei quem sou, eu sou autista e é por isso que sou assim, que sinto desse jeito, que vejo isso dessa forma.


Isso me trouxe uma paz, um fechamento de ciclo indescritível… afinal, são anos de dor e sofrimento por não me reconhecer como nada, por não me compreender e sempre me sentindo inadequada, inferior, menos. Nunca entendia o porquê de pensar tão diferente dos outros, ou agir; o ódio que eu sentia diante de uma injustiça era avassalador demais pra ser normalizado, tinha que ter explicação.


Essa explicação veio, embora tardiamente, chegou e agradeço a Deus que pude receber essa resposta em tempo hábil de fazer as pazes comigo mesma e me perdoar. A partir disso, começa outra fase: a de voltar ao dia a dia, o lide diário com as limitações e dificuldades, com a consciência do que se trata e buscando ferramentas para amenizar os prejuízos que as características trazem.


Passada a excitação inicial que vivi com o resultado da minha avaliação, hoje me vejo mais sensível e muito triste com o mundo que, ao contrário de mim, nem ficou feliz com meu diagnóstico, nem muito menos, buscou entender pra lidar melhor com ele. Afinal, eu só preciso continuar funcional - não importa o custo disso para mim - e continuar lidando sozinha com as crises.


Hoje sei o que é shutdown, mas eu nunca tinha ouvido essa palavra antes e já sofria trancada em meu quarto, no escuro, sem entender porque eu não consegui escrever um roteiro importante ou concluir a edição de um vídeo. Me sentia paralisada, e, às vezes, com muita vontade de chorar mas nem isso eu conseguia. Como contar isso a alguém se eu nem sabia do que se tratava? E se parecesse que era preguiça ou chilique? Vai ver é só ansiedade, né?


Foram muitas vezes. Muitas. Mas isso sempre foi muito escondido. Não tinha porque dividir, nem sonhava com esse diagnóstico ou que tivesse qualquer relação. Do mesmo modo que inúmeras vezes fui interpretada como grossa por dar respostas diretas ou, em outras situações, fiquei péssima por dias a fio por não responder o que eu queria, mas sim, o que a maioria diria, só pra não parecer rude… sempre foi, de um jeito ou de outro, exaustivo conviver socialmente.


Mas aí, o diagnóstico vem e me dizem: “você não parece autista”, “nada a ver com você”. Interessante porque eu sempre fui esquisita, autêntica, estranha, diferentona, machona, grossa… mas autista… autista, não né? Aí já é demais! Sempre falei alto demais, ri alto demais, sem filtro, a que fala na cara, que briga com todo mundo; a barraqueira… adjetivos diversos. Mas neurodivergente? Tá louca?


Não, realmente as pessoas não saberiam mesmo, já que eu sempre me esforcei pra fingir até quando não dava. Aí eu explodia, mas era só “desequilíbrio emocional”. E o quanto isso me custava… o sofrimento que era não entender porque “todo mundo conseguia se controlar, menos eu”. Eu só pensava isso.


Hoje, na altura dos meus 47 anos, a tristeza ainda me assola quando vejo as pessoas que eu gosto querendo que eu continue sendo a mesma pessoa de antes do laudo. Dói mais ainda perceber que não importa quantos laudos ou quantos médicos digam, elas sempre esperarão de mim o mascaramento, o fingimento. Em crise, como a que tive dia desses e me escondi no banheiro, é triste saber que não vou poder contar com um abraço. Arriscado até ouvir “que presepada é essa?”.


“Te conheço há anos e nunca vi você ter uma crise” eu ouvi essa pérola outro dia. Claro. Se eu nem sabia o que era, só queria quarto, escuro, solidão. A gente pensa mil coisas, confunde com outros transtornos, acha que é depressão. Eu já tinha sido diagnosticada com ansiedade e ficava pensando: diabo de ansiedade é essa que remédio nenhum dá jeito? E tudo isso no secreto.


Pensei muitas vezes em morrer e sumir, porque é o seguinte: ninguém te entende, você não se entende e sumir parece ser mais fácil pra acabar com a confusão toda. Hoje quando me sinto assim, ainda quero meu quarto, o escuro e a solidão. Mas fico com meus cachorros e choro. Ouço o mesmo louvor mil vezes, uma hora vou ficar bem. Já sei quem eu sou e como funciono. É tudo diferente.


E se ser autista é complexo, com tdah então, nem se fala. A cabeça parece uma máquina de escrever fantasma que não para nunca de datilografar. Elétrica ainda por cima, não desliga. Mil coisas ao mesmo tempo. Do nada, você lembra de uma conversa aleatória com alguém e repassa tudo que fez ou disse mil vezes. Só pra ter certeza que não ofendeu. Luta o dia inteiro pela previsibilidade. Sonha com uma rotina estruturada. Aí vem o tdah e acaba com tudo.


Já fiquei horas olhando as notícias. E não atualizava. E eu ali, relendo as mesmas. No mesmo site, as mesmas notícias. Aí eu ia pro outro site, também não atualizava. Mas eu gosto desse. Aí voltava pra ele. E nada. E a agenda ali do lado - minha psi me deu essa tarefa, preciso programar a agenda da semana. Comprei um quadro para isso que instalei em casa e tenho uma agenda física que carrego comigo - e nada de eu programar minha semana.


Isso pode ser perfeitamente simples, mas pra mim, programar a semana traz uma ansiedade terrível, já penso se vou conseguir cumprir e, quando vejo, já procrastinei. E aí quando chego em casa que olho pro quadro desatualizado me dá angústia. Todas as tarefas que eu não cumpro me causam sofrimento, porque eu gosto de rituais e regras. Agora imagina dizer isso pra um neurotípico. É na lata: “frescura retada!”


Então muitas coisas assim a gente acaba guardando, pra mim por exemplo, que sempre me achei diferente e, consequentemente, inferior, esconder era um meio de proteção. Algumas dessas “manias” sempre foram zoadas entre os mais próximos, mas é aquilo, ser esquisita pode, ser autista não. E assim o nível 1 de suporte vai vivendo: funcional demais pra ser autista, esquisito demais pra ser normal.


No fundo no fundo, não quero que ninguém vire doutor em autismo e tdah pra conviver comigo. Eu só queria de verdade o entendimento de que não são minhas escolhas. Se a literatura científica diz que é um neurodesenvolvimento diferente, porque eu não posso simplesmente funcionar como nasci pra ser? Essa é minha identidade. Eu não quero mais ser adequada ou atender padrões. Eu sou autista, funciono diferente e tentar ser igual aos neurotípicos

me trouxe muitos prejuízos emocionais, físicos, pessoais e profissionais.


Eu só quero ter o direito de agir de acordo com minha identidade e ser respeitada do mesmo modo que respeito a neurotipicidade.


Eu quero ser livre.   


 
 
 

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